segunda-feira, 29 de março de 2010

Ricos-Pobres, Pobres-Ricos e Pobres-Pobres, um retrato da sociedade brasileira!


Como bem disse o sumido e talentoso Belchior em uma de suas canções, eu "estava mais angustiado, que um goleiro na hora do gol...". 

Tentava digerir esta semana que se resumiu praticamente ao caso Isabella, com pitadas de cagadas políticas aqui e ali.


Não sei dizer se estava entrando em depressão ou se realmente todo aquele teatro estava me deixando nauseado e sem esperança quanto ao futuro da nossa sociedade.
O que para muitos pareceu um avanço da democracia e da justiça, o povo em frente ao Forum soltando fogos pela condenação dos Nardoni, me lembrava mais um linchamento público da era medieval...


Lembrei-me do Serra em 1º lugar na corrida pela presidência, e na cola dele, sem peruca, com os dentes a mostra,  num misto de sorriso e careta, a Dilma se aproximando...
Sinceramente não sei o que é pior ou o que é "não-melhor"



Lembrei-me dos milhões de votos do BBB, da Copa do Mundo de Futebol, que vai parar o Brasil meses antes das eleições, das minhas contas, da pedofilia, do crack dominando e destruindo o nosso futuro...





Foi quando caiu esse texto em minhas mãos.

A autora, Martha Medeiros (1961) é gaúcha de Porto Alegre, onde reside desde que nasceu. Fez sua carreira profissional na área de Propaganda e Publicidade, tendo trabalhado como redatora e diretora de criação  em vária agências daquela cidade.

O texto não tirou minha angústia, mas mostrou-me o que já sentia, só não sabia exprimir...

Leiam e passem adiante, é uma aula de sociologia/antropologia que todos entendem e que sociólogo nenhum explica pois eles fazem parte dos ricos-Pobres...

Ricos-Pobres

"Anos atrás escrevi sobre um apresentador de televisão que ganhava um milhão de reais por mês e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. Classifiquei-o imediatamente como uma pessoa pobre.
Agora leio uma declaração do publicitário Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. Ele diz que há no mundo os ricos-ricos (que têm dinheiro e têm cultura), os pobres-ricos (que não têm dinheiro mas são agitadores intelectuais, possuem antenas que captam boas e novas idéias) e os ricos-pobres, que são a pior espécie: têm dinheiro mas não gastam um único tostão da sua fortuna em livrarias, museus ou galerias de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorância e a grosseria.
Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura, educação e viagens, e com isso propagam o que conhecem e divulgam bons hábitos. Os pobres-ricos não têm saldo invejável no banco, mas são criativos, efervescentes, abertos. A riqueza destes dois grupos está na qualidade da informação que possuem, na sua curiosidade, na inteligência que cultivam e passam adiante. São estes dois grupos que fazem com que uma nação se desenvolva. Infelizmente, são os dois grupos menos representativos da sociedade brasileira.O que temos aqui, em maior número, é o grupo que Olivetto não mencionou, os pobres-pobres, que devido ao baixíssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso à cultura, infelizmente não ganham, não gastam, não aprendem e não ensinam: ficam à margem, feito zumbis.
E temos os ricos-pobres, que têm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste país um lugar que mereça ser chamado de civilizado, mas que nada: eles só propagam atraso, só propagam arrogância, só propagam sua pobreza de espírito.
Exemplos?
Vou começar por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou. Parei atrás de um Audi preto do ano. Carrão. Dentro, um sujeito de terno e gravata que, cheio de si, não teve dúvida: abriu o vidro automático, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como se o asfalto fosse uma lixeira pública.
O Audi é só um disfarce que ele pôde comprar, no fundo é um pobretão que só tem a oferecer sua miséria existencial. Os ricos-pobres não têm verniz, não têm sensibilidade, não têm alcance para ir além do óbvio. Só tem dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais caro e tratam o garçom com desdém, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e não sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevês de plasma em todos os aposentos da casa e só assistem a programas de auditório, mandam o filho pra Disney e nunca foram a uma reunião da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.
O Brasil tem saída se deixar de ser preconceituoso com os ricos-ricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve não só para proporcionar conforto, mas também para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que são áqueles inúmeros indivíduos que fazem malabarismo para sobreviver mas, por outro lado, são interessados em teatro, música, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.
É este o luxo de que precisamos, porque luxo é ter recursos para melhorar o mundo que nos coube, e recurso não é só money: é atitude e informação."

Quem discordar que atire a primeira pedra!

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6 comentários:

antunes oliveira disse...

Belíssimo texto!!! Estava eu a meditar sobre o caso Nardoni. Todas as evidências e indicios levavam a crer que ambos eram culpados e a condenação a meu ver era evidente, mas nunca
esse circo montado pela mídia me agradou. Essa
comoção nacional em torno desse caso, me fez
lembrar das inúmeras garotinhas e garotinhos
pobres, negros, mestiços que são brutalmente
assassinados todos os dias e ninguém se comove.
Não vejo interesse da mídia em acompanhar nenhum
desses casos e muito menos a população brasileira
que somente deseja o pão e o circo de cada dia!
Infelizmente, esse interesse todo tão somente
aconteceu, não apenas pelo crime ser brutal, mas
pelo fato de ser uma família de classe média alta. Se fosse uma menina pobre e negra,
moradora de um conjunto habitacional da COHAB,
será que haveria todo aquele aparato técnico
digno do CSI????
Dificilmente........pobre Brasil, País da hipocrisia e da demagogia, que acha que um dia
pode tornar-se digno de primeiro mundo.......
Mas, apesar dos pesares, a priori a justiça
segundo alguns foi feita!! Assim espero!!!

Francisco Castro disse...

Olá!

Os contrastes existentes em nosso país são enormes. São contrastes que não estão apenas nas condições econômicas e sociais, mas em termos culturais e morais. É preciso que o nosso povo começe a se interessar por coisas mais importantes.

Abraços

Francisco Castro

Edson Palma disse...

Sei que têm gente que fica desconfortável ao ler textos parecidos com este, e porque sentem isto é que enxergo mudanças significativas em nosso país...

Hoje 70% dos Internautas dá Crédito às fofocas na rede mesmo a internet tendo a capacidade de proporcionar conteúdo autêntico como esse...

Mas, penso que é por que as pessoas no Brasil estão recém adquirindo o hábito de ler blogs, ou propagar factos nas redes sociais.
Creio ainda no crucial papel que nós blogueiros temos em meio às capacidades de emitir atraentes conteúdos, capazes de mover a conduta das pessoas mais afetadas primeiro...Com isso, elas poderão agir de maneira positiva mesmo que por osmose.

Belo texto esse...

Vanda disse...

Às vezes penso que o Brasil está sem solução... Mas ainda temos que ter esperança.

1- Odeio política
2- BBB é uma grande B#@$&sta
3- Esse Caso da Isabella virou um circo (onde a mídia deitou e rolou...)


Mas... vamos esperar que algo mudo nisso tudo!

Boa semana de páscoa!

Cláu Gimenes disse...

Sensacional post!!!
Maravilhoso texto!!!
Vc teve a mesma sensação que eu sobre os fatos da semana passada! Um verdadeiro circo utilizado pela mídia, só que vc consegue escrever com leveza!!!
Me questionei desde o início deste caso a respeito do que o Antunes comentou: será que se fosse uma garotinha negra do CDHU o caso tomaria tal proporção?!
Falta cérebro nesse povo!!!
Quanta cça está sendo vitimada todos os dias pela falta de vontade política?! Fome, falta de atendimento médico!!!
Porque o caso da menina baiana de 8 anos que morreu de meningite num corredor de hospital esperando fazia 8 dias uma vaga de UTI não toma proporções gigantescas?!
Ela e todas as outras cças vitimadas pela nossa sociedade sem comprometimento são menos merecedoras de atenção?!
Pq o povo não sai nas ruas para reinvidicar pela vida de outras cças que estão na mesma situação por não poderem pagar plano de saúde?! Muitos nem se dão conta que um dia poderá ser o filho deles a padecer num corredor de hospital, mas vá lá...
Os Nardoni, infelizmente por serem de classe média, foram os Judas da vez a figurarem neste circo de horrores!

Enfim...ainda não consegui digerir toda essa história!!!

Excelente e abençoada semana!

Beatriz disse...

Minha opinião sobre o caso dessa menina é que nenhum ser humano em sã consciencia joga ninguem de uma janela, sendo ela sua filha, nem se fala. Isso é coisa de gente desequilibrada que merece tratamento psicologico, cadeia merece o resto da sociedade, que convive com crianças se contorcendo de fome até a morte e não move uma palha pra mudar, isso sim é crime brutal.

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